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Contraf-CUT reflete sobre desafios para construção do macrossetor serviços

Entidades de representação dos trabalhadores precisam se repensar para se adequar às alterações do mundo do trabalho

 

As experiências em andamento, os desafios sobre a nova conjuntura, as informações da base de cada categoria foram alguns dos temas tratados na primeira mesa do Seminário de Formação e Organização Sindical da Contraf-CUT, desta quinta-feira (25), que debateu sobre a realidade do macrossetor serviços da CUT, do qual o ramo financeiro faz parte.

A socióloga Bárbara Vallejos e o economista Gustavo Machado Cavarzan, ambos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), apresentaram informações detalhadas sobre cada um dos setores que compõem o macrossetor (comércio, comunicação, financeiro, processamento de dados e vigilantes).

Para Bárbara, o advento das novas tecnologias e as alterações na legislação trabalhistas levaram ao crescimento do “mundo de serviços”, tanto em participação no Produto Interno Bruto (PIB) quanto em número de trabalhadores. “Ao mesmo, tempo o trabalho nesse setor tem se tornado cada vez mais heterogêneo, com maior diversificação das formas de contratação, mesmo que o conteúdo do trabalho em si não seja tão distinto. Com isso, há uma certa fragmentação do trabalho e da organização dos trabalhadores”, disse.

“É justamente por isso que, mais do que nunca, não faz mais sentido falar de uma organização sindical que se baseia em categorias profissionais. Essa diferenciação no mundo dos serviços hoje quase não existe. Está ficando muito difuso. As iniciativas sindicais precisam unificar esses trabalhadores com outra lógica, para a gente conseguir de fazer uma representação mais expressiva”, completou a socióloga do Dieese.

Gustavo destacou a experiência do mapeamento realizado na base territorial do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região. “É um mundo de 60 milhões de pessoas totalmente heterogêneo. Tivemos que segmentar esses públicos e escolher por onde começar o trabalho”, ao explicar que tiveram que cadastrar os correspondentes bancários e classifica-los de acordo com a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE).

Os dados apresentados pelo economista do Dieese mostram que tem muita gente que trabalha como correspondente bancário e não é representada por nenhum sindicato. “Mas, elas desenvolvem atividades bancárias e contribuem para o resultado do banco. Precisamos bolar estratégias para, com ações sindicais, trazer essas pessoas para dentro de nossas bases”.

Além dos correspondentes bancários, Gustavo também citou as fintechs e os trabalhadores autônomos como exemplos de atuação e busca de sindicalizações. Nos últimos anos houve aumento de 60% no número de autônomos que trabalham no setor financeiro. “São agentes autônomos de investimentos. Muitos eram bancários e continuam fazendo, como autônomos, as mesas coisas que faziam nos bancos”, explicou. “O desafio é mostrar o que os sindicatos podem fazer por essas pessoas, de uma forma que faça sentido para elas se sindicalizarem. Elas precisam se sentir atraídas”, disse.

Práticas antissindicais

O responsável pela execução do projeto de sindicalização da UNI Américas, Peter Kuhns disse que a diversificação das formas de contratação citada pela socióloga do Dieese é uma realidade no mundo todo. Para ele, é um conjunto de medidas que visam à pulverização e enfraquecimento da representação sindical.

“Não é apenas no Brasil que vemos estes ataques ao movimento sindical. Trata-se de uma estratégia do capital financeiro para tentar reduzir o poder de atuação dos sindicatos”, disse. “Frente a isso, temos que pensar em estratégias para aumentar as taxas de sindicalização” completou o representante da UNI Américas ao informar que, para se contrapor aos ataques e conseguir aumentar o poder de influência dos sindicatos, a entidade está implementando um projeto específico para a situação brasileira, com base em projetos já implantados na América Latina e em outros países do mundo.

O último debatedor da mesa foi o sindicalista da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, Paulo Ayres, que trouxe a experiência do macrossetor indústria. “A CNI (Confederação Nacional da Indústria) está unida e, enquanto trabalhadores, estávamos desunidos, desarticulados. Nos juntamos para nos fortalecer. Agora já estamos construindo propostas conjuntas, e realizando campanhas salariais conjuntas”, disse.

“Construímos um instituto para pensar uma política diferente da que está colocada e avaliar como a gente pode interferir. Também criamos um grupo para ver o efeito da indústria chinesa no Brasil e em cada confederação em específico”, disse. “Precisamos repensar o sindicato por ramo de atividade. Temos que representar todo mundo. Usar a estrutura solidária das entidades para ampliarmos nossas bases e fazer as disputas que tivermos que fazer”, concluiu.
 

Fonte: Contraf-CUT